* Pesquisa realizada como aluna do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal da Bahia, com financiamento da CAPES, pelo Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior, e da Fapesb, pelo Programa de Bolsa de Doutorado.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

TODOS SOMOS PRECONCEITUOSOS

Por mais que não seja afeita às generalizações, admitir a onipresença do preconceito é necessário para não permitir que ele guie nossas ações e se traduza em discriminação.

Todos somos preconceituosos porque essa é a forma mais econômica de pensar. Ao nos relacionarmos com o mundo e com os outros o fazemos a partir de nossas experiências. Assim, diante de alguém ou de alguma situação, infinitas associações, conscientes ou não, interferem na forma como avaliamos o contexto e nos posicionamos diante dele. Em nome da praticidade e da urgência, essas associações operam de forma generalizada, ou seja, não levam em conta, em um primeiro momento, as características específicas da situação, mas tratam de enquadrá-la em uma categoria pré-estabelecida, forjada lentamente por nossos preconceitos.

Todos somos preconceituosos porque nascemos, crescemos e vivemos em sociedade e não estamos imunes aos mecanismos de classificação, valorização e reforçamento social que a constitui. Diariamente, as práticas sociais e culturais reeditam antigos preconceitos, enquanto se esforçam pra manter as coisas como elas são. Nas notícias tendenciosas, nas propagandas oportunistas, nas piadas aparentemente inocentes, nas imagens estereotipadas, nas expressões cristalizadas, de forma mais ou menos oculta, antigas ideias e ideais são transmitidos e naturalizados. Tudo isso se atualiza no preconceito que orienta o trato cotidiano entre as pessoas.

Todos somos preconceituosos porque o contato com o outro nos confronta com nosso próprio reflexo e com complexos processos de identificações. O estranho nos fascina, porque nos assusta terrivelmente. Encontrar rapidamente um rótulo com o qual definir o outro, nos dá um conforto, porque sustenta a fronteira entre o eu e o não-eu, porque nos protege da fatigante  e, por vezes, excessivamente desorganizante tarefa de questionar a nós mesmos e às nossas ações. O preconceito, portanto, funciona como uma defesa, que empregamos porque o conforto da repetição, do mais ou menos, prevalece sobre a intuição das dificuldades que podemos enfrentar na construção do ótimo.    


Admitir o preconceito e conhecer seus intrincados mecanismos é o que pode fazer minguar sua expressão na forma de discriminação. Que a primeira impressão que nos venha seja moldada por nossos preconceitos, isso me parece, por ora, inevitável. Porém, é preciso cavar um espaço entre esta impressão e o gesto, pra aí instaurar a vigilância constante contra a discriminação. Isso requer de nós a abertura à novidade, ao desconhecido, ao inusitado. Isso nos demanda encarar o reflexo não tão belo que nos mostra o espelho das nossas escolhas. Quem topa?

5 comentários:

  1. essa é uma verdade que poucos se permitem admitir...sim somos todos preconceituosos, principalmente diante de algo que desconhecemos, de algo que nos desabrada...admitido esse aspecto poderemos trabalhar o assunto de forma que o fato de ter preconceitos não autoriza nenguém a agredir outras pessoas por se situarem no espaço em que colocamos nosso preconceito. Pensar algo com seus botões é uma coisa,...sair agredindo pessoas é outra, diferente e condenável.

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  2. essa é uma verdade que poucos se permitem admitir...sim somos todos preconceituosos, principalmente diante de algo que desconhecemos, de algo que nos desabrada...admitido esse aspecto poderemos trabalhar o assunto de forma que o fato de ter preconceitos não autoriza nenguém a agredir outras pessoas por se situarem no espaço em que colocamos nosso preconceito. Pensar algo com seus botões é uma coisa,...sair agredindo pessoas é outra, diferente e condenável.

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    1. Sô, isso mesmo, ainda que leve um tempo até que aprendamos a pensar sem ou com menos preconceito, se fizermos o exercício de nos mantermos atentos, podemos começar a mudar nossas ações imediatamente. Um abraço

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  3. Eu já topei este desafio a alguns anos e sinceramente me acho tão incompreendida que as vezes que chego a sentir saudades de quando eu não tinha a mente tão aberta, me afastei de pessoas muito próximas, entes queridos mesmo, ainda tenho muito o que mudar sobre o temer o diferente. Antes eu brigava, hoje eu ignoro e luto por conscientização, sob críticas... Ver o preconceito doí, disfarço e continuo sonhando que um dia que ele desapareça...

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    1. Oi Elaine, acho que entendo o que você fala. Quando estamos mais atentos ao preconceito, atitudes, palavras, piadas, olhares, enfim, coisas que antes passavam despercebidas passam a nos incomodar. É ainda mais difícil quando elas vêm de pessoas queridas. Não é fácil mesmo encontrar a maneira certa de nos posicionarmos, mantendo o equilíbrio entre a firmeza e a ternura, mas penso que temos que continuar tentando. Um abraço

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